5 de set de 2011

NIETZSCHE, ART NOUVEAU E AUGUSTO DOS ANJOS: UM CAMINHO POSSÍVEL PARA O NADA

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Introdução

Já apontada por José Paulo Paes (1985), dentre outros críticos, mas ainda não analisada de maneira mais profunda (logo, motivação deste trabalho), a idéia do niilismo parece sempre ter pairado sobre a poesia de Augusto dos Anjos. Contudo, convém se perguntar: o que seria, realmente, o niilismo na poética de Augusto dos Anjos? Seria possível defini-lo?

 

A moderna concepção de niilismo começou a desenvolver-se, principalmente, no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, depois das teorizações do filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche, e aonde, pensando cronologicamente, estaria também situada a poesia de Augusto dos Anjos – no período a que se conveniou chamar, em nossa literatura, de prémodernismo. Contudo, tal termo (pré-modernismo) traz em si certa ambiguidade e, portanto, duas acepções possíveis: simples precedência cronológica ou mesmo antecipação de experiências posteriores (BOSI, 2006). Ainda que, talvez, seja impossível escapar dessa contradição, mas numa tentativa de alinhar a produção da época a determinado Zeitgeist, (novamente) o crítico e poeta José Paulo Paes, recuperando termo já utilizado por outros estudiosos, propõe uma interpretação do período a partir do conceito de art nouveau: estética notada, sobretudo, nas artes plásticas e que estaria, especialmente, preocupada com o ornamento e as estruturas (pragmáticas) não só da vida – animal e vegetal – mas da própria arte que persistiria num desejo de “exaltação dionisíaca da vida, um vitalismo de cuja formulação filosófica se encarregara Nietzsche” – e do qual, por fim, apontaria justamente Augusto dos Anjos, ainda que involuntariamente, como “o mais original e o mais extremado poeta do nosso art nouveau” (PAES, 1985, p. 92). Sendo assim, sabendo da relação entre Nietzsche e artenovismo, e deste com Augusto dos Anjos, observada por Paes, seria possível uma aproximação do niilismo presente em Augusto dos Anjos do niilismo nietzscheano? – e no que isso resultaria?

 

Objetivos

Pensando na (inter)relação dos temas apresentados (Augusto dos Anjos – niilismo – Nietzsche – art nouveau), este trabalho tem por objetivo, através da análise de um corpus de 10 poemas escolhidos (tendo privilegiado apenas os sonetos), apurar o niilismo na poética de Augusto dos Anjos por meio da possível relação deste com o pensamento nietzscheano do niilismo e, consequentemente, do art nouveau (não se tratando, todavia, de um trabalho de filosofia, ainda que, apesar disso, ela seja utilizada como suporte teórico para a melhor compreensão de aspectos críticos/temáticos da poesia de Augusto dos Anjos. Por fim, também do estudo – mas uma ponte que, teoricamente, ligaria os temas apresentados).

 

Fundamentação teórica e metodologia

Para a temática do niilismo foi adotado, sobretudo, o livro O Niilismo (do filósofo italiano Franco Volpi) e em especial o capítulo Niilismo e decadência em Nietzsche (capítulo de fundamental importância para uma melhor compreensão do niilismo em Nietzsche e, mais
do que isso, para a “tradução” dessa percepção na poesia de Augusto dos Anjos).

 

Seguindo, para análise da poética de Augusto dos Anjos, foi estabelecido um corpus de 10 poemas que pudessem colaborar para melhor compreensão de uma realidade niilista (a saber, foram escolhidos: “Psicologia de um vencido” – ao qual faremos algumas considerações neste trabalho; Soneto “Agregado infeliz de sangue e cal”; “O Lázaro da Pátria”; “Vozes de um túmulo”; Soneto “Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra!”; “O lamento das Coisas”; “Caput Immortale”; “Louvor a Unidade”; “Suprème Convulsion” e “A um Gérmen”).

 

Como material de referencial teórico para a análise dos poemas escolhidos foram utilizados os livros Introdução à Análise de Poemas da professora Maria Lúcia Guelfi e Fenomenologia da Obra Literária da professora Maria Luzia Ramos – fundamentados na teoria do filósofo polonês Roman Ingarden, para quem “a obra literária é um sistema de estratos heterogêneos, dependentes entre si e inseparáveis como existências autônomas” (GUELFI, 1995, p. 7).

 

Resultados e discussões

Como já fora dito anteriormente, a moderna concepção de niilismo começou a desenvolver-se, sobretudo, no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, com o filósofo Nietzsche – que delinearia uma concepção histórica sobre o fenômeno: desde o Platonismo, pela subordinação resultante que a realidade (“mundo sensível”) sofreria de um mundo ideal (“mundo inteligível”) e onde tal percepção seria legada pelo Cristianismo (na visão da salvação) e mesmo por pensadores como Kant que, para Nietzsche, apesar de ter contribuído na separação da religião da filosofia, não conseguiu desvincular a moral cristã de seu pensamento – afora a denúncia do mundo verdadeiro ser indemonstrável pela razão teórica e uma simples hipótese pela razão prática ou, em outras palavras, “Em decorrência da destruição kantiana das certezas metafísicas, desaparece a crença no mundo ideal e em sua cognoscibilidade” (VOLPI, 1999, p.58). Portanto, o homem contemporâneo estaria vivendo o ápice de uma lenta (de)gradação de valores que resultaria na perda total do sentido da vida (representada pela célebre frase: “Deus está morto” – fratura metafísica, e moral, de nosso tempo).Deste modo, a manifestação do niilismo, para Nietzsche, seria entendido, sobretudo, de duas formas: – como herança de um sentimento de decadência que se iniciaria com a destruição dos antigos valores, mas onde outros ainda tomariam seu lugar, ocupando o mesmo espaço dos anteriores. Ainda resiste a criação, mas essa é feita de declínio e recuo da potência do espírito e posterior dissolução no Nada. (niilismo passivo – justamente a idéia focada, por hora, neste trabalho).– como uma forma de negação do mundo convencional e gerador de uma força capaz de reconstruir esse mundo por meio da palavra, ou seja, a negação do mundo comum e a criação e reconstrução deste mundo de maneira diferente (niilismo ativo).

 

Em Augusto dos Anjos nota-se que sua poesia é feita do conhecimento (ainda que fragmentado e conflitante) da técnica (que pode ser relacionada também à forma) e do conhecimento sobre o homem. Existe uma preocupação em descrever os mecanismos da máquina humana, tentando depreender, assim, seu funcionamento (e, consequentemente, o da realidade na qual ela está inserida). No poema “Psicologia de um vencido” de Augusto dos Anjos (e aqui vale a metonímia: pois é uma constância também em sua obra poética – daí, portanto, o trabalho aqui depreendido) o eu lírico tenta não apenas retirar da realidade que o circunscreve a matéria de sua poesia, mas apresentá-la quase como seria feita em um estudo científico (físico-químico ou psicológico). O conhecimento, ou saber, se faz pela razão orientada da observação e da experiência. O homem racional de Augusto dos Anjos, em sua angustiante tentativa de compreender os limites deste mundo extremamente pragmático, só consegue perceber que sua tentativa é inútil quando se reflete na gula irracional do verme, pois, apesar de todo o conhecimento, todos terão o mesmo fim: o Nada. A questão do saber acaba por ser de suma importância para a construção do niilismo em Augusto dos Anjos, pois este saber científico – apesar de guiá-lo – não consegue dar respostas a todas as perguntas do homem moderno e, além disso, sufoca a metafísica.

 

A poesia de Augusto dos Anjos, evidentemente, é criação, pois é fazer poético, mas, quando observada pelo conceito de niilismo passivo que fala Nietzsche, é, sobretudo, representação: de valores anteriores (seja em se tratando da distorção de estéticas literárias anteriores: Romantismo, Simbolismo, etc.; seja da construção de pilares baseados na sociedade da época – influenciada pelo “boom” cientificista e racional – e não propriamente pela religião) ou pelo menos do choque destes mesmos valores. É, em suma, o despertar (saber) de um novo estado de coisas e do mundo (“sensível” ou “inteligível”). Para Nietzsche, o niilismo é o resultado de uma necessidade intrínseca do homem quando as grandes categorias organizadoras do mundo são suspeitas de serem mantidas apenas por uma autoilusão: é um despertar (construção) e destruição (desconstrução) deste mundo. O niilismo expresso na poesia de Augusto dos Anjos, de um modo geral, passa pela negação do desperdício da força vital, pois nega que a vida deva ser regida por qualquer tipo de valor transcendente tendo em vista um mundo superior. Contudo, tal niilismo não promove a criação de qualquer tipo de valor em substituição ao idealismo metafisico, mas acaba por abraçar outras formas para suprantar essa falta (no caso aqui, a ciência, representada no saber). Mas esse esforço se mostra inútil e sobra ao homem apenas “a frialdade inorgânica da terra” (ANJOS, p.38, 2001).

 

Sendo assim, de maneira geral, o niilismo em Augusto dos Anjos seria representado pela manifestação do sentimento de decadência principiado pelo desmoronamento de antigos valores, mas onde outros ainda assumiriam seu espaço (pois parece persistir na poesia de Augusto dos Anjos uma falta de fôlego angustiante – similar do eu lírico do poema “Psicologia de um vencido”): o cientificismo sobre a religiosidade cristã, por exemplo, justificaria a obsessão (do saber) em descrever os mecanismos, ou ornamentos, da vida: “Eu, filho do carbono e do amoníaco” (idem, ibidem, p.217). Tal ceticismo, em explicações metafísicas, seria o dínamo que resultaria na posterior crença de dissolução no Nada (patente na carne exageradamente apodrecida e nas bestializações de Deus de sua poesia) e que aproximaria Augusto dos Anjos ao niilismo passivo (que sente a fratura do mundo, mas não consegue superá-la).

 

Conclusões

Por estar em andamento, o trabalho não apresenta resultados conclusivos – apenas algumas considerações gerais. O niilismo representaria “mais que uma simples corrente filosófica do pensamento contemporâneo ou uma triste aventura de suas vanguardas intelectuais.” (VOLPI, 1999, p. 137), pois estaria enraizado nos mais diversos setores de nossa sociedade e, como não poderia ser diferente, com tal realidade esfacelada se refletindo na poesia (principalmente na poesia do final do século XIX e começo do século XX, com seus vários “ismos” – daí seu maior “profeta”, Nietzsche, ser uma das referências do art nouveau). Augusto dos Anjos, “antena da raça” (Pound), refletiria a falta de fôlego do homem moderno em transpor certas tendências, afora a concepção fragmentada, confusa, que acabaria por levar a “matéria” de sua poesia, gradativamente, para baixo: do orgânico (vida) para o inorgânico (morte). Em suma, a poesia de Augusto dos Anjos, seria o próprio sinal da decadência – de seu tempo: tanto material (carne) quanto espiritual (metafísico).

 

Referências

ANJOS, Augusto dos. Eu e Outras Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2001. (Obra-prima de
cada autor, 82).

BOSI, Alfredo. Augusto dos Anjos. In: ______. O Pré-Modernismo. 5°ed. São Paulo: Cultrix, p. 41-51, 1966.

FONSECA, Thelma S. M. Lessa. Nietzsche e a auto-superação da Crítica. São Paulo: Humanitas Editorial; Fapesp, 2007.

GUELFI, Maria Lúcia. Introdução à análise de poemas. Minas Gerais: Universidade Federal de Viçosa, 1995.

NIETZSCHE, Friedrich W. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, Coleção Os Pensadores. 2005.

PAES, José Paulo. Augusto dos Anjos e o art nouveau. In: _______. Gregos & baianos. São
Paulo: Brasiliense S. A., 1985.

PEREIRA, Fábio Mazziotti. Vertentes do niilismo na obra poética de Manoel de Barros.
O guardador de inutensílios, Campo Grande, n. 4, p. 74-83, 2002.

VOLPI, Franco. O Niilismo. Trad. Aldo Vannucchi. São Paulo, Edições Loyola, 1999. RAMOS, Maria Luiza. Fenomenologia da Obra Literária. Rio de Janeiro, ed. Forense,
1968

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Texto por:

Leonardo Vicente Vivaldo, Antônio Donizeti Pires.
Campus de Araraquara, Faculdade de Ciências e Letras, Letras.
leovivaldo@yahoo.com.br

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