5 de set de 2011

Niilismo incompleto e niilismo consumado

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Nietzsche entendia por niilismo incompleto aquela forma de niilismo que se impõe como um “estado psicológico” voltado a uma desvalorização e dissolução dos valores tradicionais tidos como supremos, mas que põe, no lugar dos antigos valores, novos valores que possuem a mesma carga metafísica, o mesmo caráter supra-sensível, ideal, a pretensão de fundamento, fundação, Grund, verdade última. Nessa forma de niilismo, a dicotomia platônica entre mundo verdadeiro e mundo aparente ainda não se mostra superada, existe ainda uma fé na verdade, que apenas volta seu foco para novos valores. Nessa perspectiva, podemos afirmar que positivismo, cientificismo, naturalismo, mecanicismo, racionalismo, mostram-se como niilismos incompletos, que trocam de ídolo, mas mantêm o culto. Assim também, na esfera política, com o nacionalismo, socialismo, anarquismo, chauvinismo, democratismo, etc...

 

Somente com o amadurecimento do niilismo, portanto com um niilismo completo, que exorcize definitivamente o fantasma de Platão e seus espectros, é possível desconstruir não somente os velhos valores metafísicos, mas também o lugar que eles ocupavam, ou seja, a ilusão do “mundo verdadeiro”. Esse niilismo completo, no entanto, será inicialmente um niilismo passivo, um estado de decadência de poder ocasionado pela nostalgia da perda da verdade e da fundação/fundamento. O niilista passivo é aquele tomado pela angústia heideggeriana, pela náusea sartreana diante da falta de sentido da existência, pelo sentimento de absurdo do qual nos fala Albert Camus, mas incapaz de contornar esse abismo. O homem absurdo camusiano, descrito em O Mito de Sísifo e posto em movimento no personagem de Mersault, do romance O Estrangeiro (e também no Roquentin sartreano de A Náusea), sente-se vazio, incapaz de fazer escolhas, uma vez que não mais possui um fundamento último, uma vez que percebe que qualquer escolha se dissolve em igual falta de sentido. Perde o interesse pela vida, passa a agir mecanicamente e movido por uma espécie de “ética da quantidade”, uma vez que não há critérios para julgar a qualidade de suas ações. Seria, como nos sugere Franco Volpi, uma espécie de assimilação do budismo oriental pelo pensamento ocidental, um tropismo à postura apática e ataráxica, um cultivo do nada, do pessimismo, da negação. A essa forma de niilismo podemos chamar, também, de niilismo reativo, caracterizado, principalmente, pela nostalgia de Deus, da metafísica, da verdade com seu caráter de fundação. O termo niilismo, em geral, vem sendo utilizado sempre como sinônimo dessa forma de niilismo passivo, destrutivo e incapaz de construir, mas que não é, como veremos, a única forma de niilismo possível segundo Nietzsche.

 

O maturar do niilismo completo poderá tirar o niilista passivo desse estágio de apatia e torná-lo em niilismo ativo, ou seja, em “incremento da vontade de potência” que se volta para a aceleração do processo de destruição dos antigos valores, sem nostalgia e passividade. Nietzsche denomina niilismo extremo esse niilismo ativo que sustenta que toda fé, todo verdadeiro é necessariamente falso.

 

Quando o niilismo abandona seu aspecto meramente negativo e abre novamente uma possibilidade de afirmação, supera sua própria incompletude e torna-se niilismo consumado, niilismo perfeito, aquele niilismo que Nietzsche reivindica para si quando se auto-intitula “o primeiro niilista consumado da Europa, que, todavia, já viveu, ele mesmo, o niilismo em si até o fim, - que o tem atrás de si, abaixo de si, fora de si”. Percebe-se, portanto, que a “superação” do niilismo não é, em si, verdadeiramente superação, mas ultrapassamento sem abandono, é um eterno “remeter-se a”, uma “torção”, “distorção”, “mergulhar-em”, ou, utilizando novamente a terminologia heideggeriana, é Verwindung, e não Überwindung. O niilista consumado é aquele que consegue agir e construir sem deixar de assumir o niilismo, o que consegue atuar de maneira positiva mesmo após ter exorcizado o fantasma de Platão. Esse niilismo ativo e consumado parece se tornar mais “dizível” (no sentido que Foucault adota para o termo) do que nunca no cenário contemporâneo e é justamente a forma de niilismo que se nos apresenta, conforme Gianni Vattimo, como única chance.

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Lucas Nogueira do Rêgo Monteiro Villa Lages

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